No meio da terra rachada, onde o chão pede socorro e o vento carrega o nome dos rios mortos, Vovó Onça ergueu a cabeça para o céu e deixou o rugido escapar.
Não era fúria.
Era memória.
Era o grito das águas que sumiram, dos peixes que nunca voltaram, das árvores arrancadas como se fossem descartáveis.
Era a voz de todas as avós que um dia lavaram roupa no rio limpo — e hoje lavam tristeza em água turva.
Com o xale lilás tremulando, ela abriu a boca não para ameaçar, mas para lembrar:
“Quem mata a água, mata a si mesmo.”
O solo seco tremeu.
As nuvens se juntaram como quem reconhece uma velha amiga.
E, por um segundo, o planeta silenciou para ouvir a mais velha das guardiãs.
Porque quando Vovó Onça ruge, não é só a floresta que escuta.
É o mundo inteiro que desperta.
🖋️ Helena Bernardes
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